segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Sobre Gramado, críticas e o cinema gaúcho

Esse texto foi motivado pela leitura de outros que falam sobre as decisões do Júri de Longas Brasileiros no 42º Festival de Gramado e, também, para analisar um pouco da trajetória gaúcha nesses últimos anos dentro do festival.  

Gramado, júri e críticas
Após a leitura de algumas críticas a respeito da decisão do júri dos longas nacionais insiro minha posição sobre o tema, pois aceitei o convite do festival e integrei o referido júri.

Li e ouvi que o júri distribui prêmios. Li e ouvi que foram sete os premiados entre oito concorrentes.  Ainda, li e ouvi que o Júri estava formado por muitos gaúchos.  Então, esclareço que foram cinco os filmes premiados pelo Júri de Longas-Metragens Brasileiros. Ainda, na mesma premiação, houve um longa premiado pelo Júri da Crítica e, outro, pelo Júri Popular. Também é justo afirmar que se o fato de haver jurados gaúchos fosse fator decisivo na escolha, o longa “Senhores da Guerra” (Dir. Tabajara Ruas), teria ganho a maioria dos prêmios não é mesmo?   

Acho injusta tal afirmação com os jurados gaúchos. E, também, é criado um clima desconfortável e desfavorável aos próprios filmes gaúchos, seja em que edição for.

Então, é fundamental passado alguns dias da premiação, dar mais um enfoque sobre o que foi escrito e dito.

Não entro no mérito aqui dos filmes premiados ou não pelos meus colegas e por mim. É justo, no entanto, que todos saibam que as decisões, polêmicas ou não, foram fruto de muita discussão, varando a madrugada da sexta para o sábado. Se não existiu consenso em alguns casos, novas rodadas de conversa. Quando definitivamente não havia decisão unânime, íamos para o voto. Assim fizemos. De forma plural e democrática.

Algo dito muitas vezes merece mais uma vez ser grifado.  Cada corpo de jurados sempre será alvo de polêmicas.

O fato do Júri não ter premiado como melhor filme a mesma obra do Júri Popular ou do Júri da Crítica não pode desvalorizar o trabalho feito. Pode ser um bom componente para a discussão. Não o definitivo. Não somos donos de verdades. E muitas e muitas vezes esses prêmios não coincidem exatamente por termos impressões - cada um - diferentes.

Não tenho carta para defender ninguém. Nem é este meu objetivo. Agora, no que tange as decisões tomadas, essas polêmicas ou não, contestadas ou não, merecem a atenção devida.

Fizemos no júri um pacto de discussão aberta e irrestrita. Certamente tivemos consensos. Certamente tivemos discussões. Enfim, o que vale, o que fica é que certamente tivemos respeito um pelo outro. Respeito por defendermos ideias, fruições e reflexões. Muitas vezes diferentes outras semelhantes, mas sólidas e defendidas com veemência.

Sem tergiversar. Discutir é preciso. Defender ideias e posicionamentos faz parte de todos os festivais que conheço.  

Sou realizador e cineclubista e não tenho que concordar com posicionamento de alguns críticos de cinema assim como esses não precisam concordar comigo. Da mesma forma, muitas vezes, concordamos.  Parece óbvio certo? Mas não é. Muitas pessoas da área tem dificuldade de conviver com opiniões contrárias. Então, tudo cai por terra.

Penso ainda que a Curadoria do Festival acertou em suas escolhas, tanto na Mostra de Longas Brasileiros quanto Latinos.  

Parabenizo a organização do festival por mais uma edição. Competência e organização foram palavras muito ouvidas.

Também agradeço a coordenação do festival pelo convite para a exibição, fora de competição pois, não foi inscrito, do documentário “Janeiro 27”, dirigido pelo Paulo Nascimento e por mim.

Cinema Gaúcho
Sobre o cinema gaúcho nos últimos anos é fundamental ratificar os avanços que tivemos. Temos que valorizar cada vez mais isso. Ainda faltam, dentro do próprio estado, mais reflexões, críticas e elogios ao cinema produzido por essas paragens. Falta nos valorizarmos mais.

Com muitos debates entre as entidades do cinema do RS com a Coordenação do Festival de Gramado, conseguimos que a Mostra de Curtas Gaúchos estivesse no Palácio dos Festivais e que a premiação fosse no primeiro domingo do evento. Isso fortaleceu e valorizou a premiação.

Tivemos novamente uma plural e instigante safra de curtas na Mostra Gaúcha com mais diferentes temáticas e narrativas. Parabéns aos premiados pelo júri: “Domingo de Marta” (Dir. Gabriela Bervian) e “Linda, Uma História Horrível”(Dir. Bruno Gularte Barreto) e, ainda, “Sioma -  O Papel da Fotografia” (Dir. Karine Emerich e Eneida Serrano) que recebeu o Prêmio Aquisição TVE e Exibição Curtas Gaúchos, da RBS TV. 

Fazendo um parêntese - a Mostra Nacional de Curtas também demonstrou esse multifacetado arco com ótimos curtas e uma premiação que esteve positivamente ao encontro disso.

Retomando a questão do intenso momento da produção local, isso ficou refletido no certame nacional. O inovador e poético “Se Essa Lua Fosse Minha” (Dir. Larissa Lewandowski), que não havia ganho em nenhuma outra categoria, ficou merecidamente com o Kikito de melhor filme. Também impactou a animação “A Pequena Vendedora de Fósforos” (Dir. Kyoko Yamashita), suas influências estéticas e sua reflexão social.

Destaco, ainda, que há dois anos temos a Mostra Gaúcha de Longas-Metragens dentro do Festival que tem feito com que público, crítica e curadores de outros festivais possam ter contato com nossa diversa produção.

Para encerrar, afirmo, ficando apenas nessas duas últimas edições de Gramado - caso contrário minha exposição ficaria além do que desejo - que os longas gaúchos que estiveram em competição “Senhores da Guerra” (Dir. Tabajara Ruas), em 2014 e, no ano anterior, “A Oeste do Fim do Mundo” (Dir. Paulo Nascimento), na Mostra Latina, e “Até Que A Sbórnia nos Separe” (Dir. Otto Guerra e Ennio Torresan Jr.), representaram muito bem a produção do estado. Sendo que ambos, para mim, foram os melhores filmes nas respectivas mostras, em Gramado/2013.

Para ver como em muitas vezes pensamos de forma diferente. Sempre, com respeito na opinião do outro. Ponto.

Luiz Alberto Cassol
Cineasta e Cineclubista


(Luiz Alberto Cassol / agosto de 2014)