A crônica do Diomar Konrad
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CRÔNICA | DIOMAR KONRAD
O cardápio
Estava tudo bem no bar: música boa, bebida gelada e pessoas interessantes. Eis que entra no bar um advogado, portando um habeas corpus destinado ao proprietário, exigindo a liberação imediata do filé xadrez, preso na cozinha em circunstâncias duvidosas. O nobre jurista defendeu, ainda, a inocência do Pereira, acusado de ser o líder da quadrilha e de provocar água na boca dos clientes, devido a sua qualidade e quantidade. Pego o cardápio e me deparo com outras situações em que há muitas dúvidas a respeito do que está sendo oferecido neste e em outros estabelecimentos.
Veja o caso do arroz à grega, por exemplo. Pelo preço que cobram por um prato que custa tão pouco, imagino que a causa esteja nas altas taxas de importação do produto. Outro disparate é o fato de o filé a pé custar mais caro que o filé a cavalo, além de, em muitos casos, chegar primeiro na mesa.
Outros pratos intrigam os ecologistas. Deveria ser proibido o tal de molho madeira, pois implica em maior desmatamento. E o sujeito que pede um sanduíche natural deve pensar que existem os artificiais, fabricados a partir de células-tronco de salaminho.
No cardápio existem as homenagens, ainda que discretas. Como acompanhamento das fritas e da polenta está o queijo, tão ralado quanto a maioria dos brasileiros. Para comprovar este argumento, percebo que os dois pratos estão entre os mais baratos do bar, condizentes com a proposta. E o tal filé do chefe, que serve para lembrar que, por mais livre que sejamos, sempre prestamos conta para alguém.
Existem, é claro, alguns dilemas no cardápio. Um caso que sempre me intrigou é o frango a passarinho. Se este já é uma ave, constitui um caso típico de redundância. Talvez seja uma referência ao tamanho, por vir em porções minúsculas. O sanduíche aberto deve ter surgido logo após a implantação do Código de Defesa do Consumidor, para o cidadão poder ver o que está ingerindo. Isso não impede que, nos outros modelos, se levante o pão discretamente, olhando para o lado para ver se ninguém está vendo.
Por fim, intriga-me o fato de ainda se denominar porção ao conjunto de produtos semelhantes, como é o caso dos ovos de codorna. A palavra me parece antiquada e um tanto grosseira, bastante caipira eu diria. Talvez devêssemos melhorar neste ponto, realizando um estudo semântico para encontrar uma palavra mais adequada para identificar aquele agrupamento.
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